
Muitos atletas de endurance têm migrado para a dieta cetogênica (conhecida como LCHF – Low Carb, High Fat) com o objetivo de ensinar o corpo a queimar gordura de forma quase ilimitada.
No entanto, a ciência revela um paradoxo: você pode ver seus indicadores de saúde e potência subirem no laboratório, mas acabar cruzando a linha de chegada mais tarde do que quando comia carboidratos.
Este artigo explica, com base em estudos realizados com atletas de elite, por que a adaptação extrema à gordura pode prejudicar o seu tempo de prova.
1. A melhora no VO2 Máximo: um resultado que pode enganar
Um dos pontos que mais gera confusão é que, após algumas semanas em dieta cetogênica, o atleta frequentemente apresenta um aumento no seu VO2 Máximo (a capacidade máxima de captar e utilizar oxigênio).
No estudo “Supernova”, realizado com marchadores de classe mundial, todos os grupos, tanto os que comiam muito carboidrato quanto os que não comiam quase nada, melhoraram seu VO2 Máximo em cerca de 3% a 7% após três semanas de treino intenso.
Essa melhora acontece por dois motivos: o efeito do próprio treinamento físico e a perda de peso corporal (gordura e água) comum nessa dieta, o que aumenta a sua potência relativa. O problema é que ter um “motor maior” não adianta se o “consumo de combustível” do carro se tornar ineficiente.
2. O custo do oxigênio: por que a gordura é um combustível caro?
A economia de movimento é um dos pilares do endurance. Ela define quanto oxigênio o seu corpo gasta para manter uma determinada velocidade. É aqui que a dieta cetogênica falha no alto rendimento.
A biologia é clara: para produzir a mesma quantidade de energia (ATP), o corpo humano consome mais oxigênio quando queima gordura do que quando queima carboidrato. Os pesquisadores observaram que os atletas adaptados à gordura tiveram um aumento real no custo de oxigênio para caminhar na velocidade de prova.
Na prática, isso significa que o atleta LCHF precisa gastar uma fatia maior do seu VO2 Máximo apenas para manter o ritmo que os adversários mantêm com mais facilidade. O ganho que eles tiveram no tamanho do “motor” foi anulado pela perda de eficiência do sistema.
3. A perda da capacidade de acelerar
Para esforços intensos, como subir uma ladeira, responder a um ataque ou dar um sprint final, o corpo depende da quebra rápida de carboidratos. Esse processo é controlado por uma enzima chamada piruvato desidrogenase (PDH).
Quando você passa semanas restringindo carboidratos, a atividade dessa enzima cai drasticamente. O corpo “desaprende” a usar o carboidrato de forma rápida e eficiente. Assim, mesmo que o atleta decida consumir um gel de carboidrato no meio da prova, o sistema metabólico não consegue processá-lo na velocidade necessária para sustentar a alta intensidade. O resultado é um atleta que consegue ir muito longe em ritmo moderado, mas que não tem a capacidade de mudar de ritmo quando a prova é decidida.
4. Onde o cronômetro não mente: resultados reais
O teste definitivo do estudo Supernova foi uma prova oficial de 10 km sancionada pela federação internacional (IAAF). Os números mostraram o impacto real das escolhas alimentares:
- Atletas com dieta rica em carboidratos: Melhoraram seus tempos em média 6,6%.
- Atletas com carboidratos periodizados: Melhoraram 5,3%.
- Atletas em dieta cetogênica: Não apresentaram nenhuma melhora estatística no tempo de prova, e alguns chegaram a ficar mais lentos do que antes das três semanas de treino intenso.
Além do tempo pior, esses atletas relataram que o exercício parecia muito mais difícil. A Percepção de Esforço (RPE) e a frequência cardíaca foram significativamente mais altas no grupo que evitava carboidratos, mostrando um maior desgaste físico e mental para entregar um resultado inferior.
Conclusão: a flexibilidade metabólica é o objetivo
A gordura é um combustível excelente para saúde metabólica, controle de peso e provas de ultra-distância em ritmos muito lentos. No entanto, para quem busca performance competitiva, o carboidrato continua sendo o combustível mais eficiente por unidade de oxigênio consumido.
A estratégia mais inteligente para o atleta moderno não é excluir o carboidrato, mas sim periodizá-lo através do conceito de “combustível para o trabalho necessário”:
- Use treinos com baixo carboidrato para rodagens leves, visando melhorar a eficiência das mitocôndrias e a queima de gordura na base.
- Garanta estoques cheios para os treinos de alta intensidade e competições, para que sua capacidade de acelerar e sua economia de movimento não sejam prejudicadas.
Ser um “bom queimador de gordura” é uma ferramenta valiosa, mas ela não deve vir ao custo da sua velocidade final. No dia da prova, a eficiência no uso do oxigênio é o que determina quem cruza a linha primeiro.
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